
Destaques do dia
Viva, investidor 👋
Aqui está o que precisas de saber hoje, em 7 minutos.
💸 As gigantes tecnológicas já emitiram perto de 320 mil milhões de dólares em dívida este ano, e essa corrida ao financiamento está a ajudar a empurrar os juros de longo prazo para máximos de quase duas décadas
💊 A Novartis caiu mais de 9% depois de um terceiro medicamento falhar em testes clínicos numa única semana, no pior dia de sempre da ação em bolsa
🏭 A produção industrial alemã caiu 1,1% em julho, a maior queda em quase um ano, muito por causa da travagem nas fábricas automóveis
Os números de hoje
▼ S&P500
▼ NASDAQ
▼ OURO
▼ BITCOIN
▲ BRENT OIL
0,38%
0,29%
0,45%
1,33%
2,10%
7.719
26.507
$4.393
$78.388
$99,20
Dados fornecidos pelo Yahoo Finance.
MACROECONOMIA
A fatura escondida do boom da IA

O que se passou
As cinco maiores tecnológicas dos Estados Unidos, mais a Nvidia, já emitiram cerca de 320 mil milhões de dólares em dívida este ano para financiar a construção de infraestrutura de inteligência artificial.
Se olharmos apenas para dívida de longo prazo e ajustarmos os prazos para uma base comparável de dez anos, esse valor equivale a cerca de 70% de toda a nova dívida de longo prazo emitida pelo governo americano este ano.
O que isto significa
A yield das obrigações do Tesouro americano a 30 anos chegou aos 5,3% no mês passado, o valor mais alto desde 2007. E este ano já passou mais dias acima dos 5% do que em qualquer outro desde 2006.
Há várias razões para isto. O governo americano continua com défices elevados e precisa de emitir cada vez mais dívida. O petróleo voltou a subir, o que trouxe mais receios de inflação. E, ao mesmo tempo, os investidores estão cada vez menos convencidos de que os juros vão descer depressa.
A isto junta-se agora a corrida das grandes tecnológicas à infraestrutura de inteligência artificial.
Estas empresas precisam de centenas de milhares de milhões de dólares para construir data centers, comprar chips e aumentar capacidade. E parte desse dinheiro está a ser levantado através de dívida.
Ou seja, o governo e as tecnológicas estão a ir buscar capital ao mesmo mercado e a disputar os mesmos investidores.
Porque deves querer saber
📉 Os lucros distantes valem menos hoje.
Quando uma obrigação do Tesouro paga 5%, começa a ser uma alternativa muito mais interessante a uma ação cara do que era há alguns anos.
Isso pesa sobretudo nas empresas de crescimento, porque uma parte importante da valuation depende de lucros que só deverão aparecer daqui a vários anos.
E quanto mais altos forem os juros, menos valem hoje esses lucros futuros.
Isto, claro, não quer dizer que devas evitar investir nas tecnológicas. Quer apenas dizer que uma carteira muito exposta à inteligência artificial também pode estar mais exposta aos juros do que parece.
🔄 A mesma corrida que alimenta o boom torna-o mais caro.
É aqui que a história fica interessante.
As empresas precisam de pedir dinheiro emprestado para financiar a expansão da IA. Mas, quanto mais capital procuram, mais ajudam a manter os juros de longo prazo elevados.
E esses mesmos juros acabam depois por pressionar as próprias valuations.
Por isso, além de acompanhar quem está a investir mais em IA, eu olharia também para quem consegue pagar essa expansão com o dinheiro que já gera.
A Microsoft e a Nvidia estão numa posição mais confortável, porque têm muito cash flow e balanços fortes. Já empresas como Oracle e CoreWeave dependem bem mais de dívida e financiamento externo. Meta e Alphabet ficam algures no meio: geram muito dinheiro, mas o investimento em IA já é tão grande que também estão a recorrer mais ao mercado de dívida.
SAÚDE
Três falhanços numa semana

O que se passou
As ações da Novartis caíram mais de 9% esta terça-feira, depois de a farmacêutica anunciar que o del-desiran não conseguiu mostrar uma melhoria estatisticamente significativa face a placebo num ensaio clínico de fase avançada.
O medicamento estava a ser testado para a distrofia miotónica tipo 1 e este resultado acabou por provocar o pior dia de sempre da ação da Novartis em bolsa.
O que isto significa
O problema é que este não foi um caso isolado.
Foi já o terceiro revés clínico da empresa numa única semana.
Poucos dias antes, o pelacarsen, um medicamento para reduzir o risco cardiovascular associado à lipoproteína (a), também tinha falhado num estudo importante.
E, antes disso, a Novartis já tinha suspendido oito ensaios de uma terapia celular experimental depois da morte de três doentes.
O del-desiran tinha chegado à empresa através da compra da Avidity Biosciences por cerca de 12 mil milhões de dólares no ano passado, por isso este resultado também levanta dúvidas sobre o preço pago nessa aquisição.
Porque deves querer saber
💰 Uma aquisição de 12 mil milhões sob pressão.
O Barclays já tinha avisado que o sucesso do del-desiran era importante para justificar o valor pago pela Avidity.
Com este falhanço, essa conta fica agora bem mais difícil.
A Novartis diz que ainda vai analisar os dados completos e falar com os reguladores para perceber se existe algum caminho possível para o medicamento.
🧬 A corrida ao Lp(a) fica mais aberta.
O falhanço do pelacarsen também mexe com uma área onde várias farmacêuticas têm colocado muito dinheiro.
A lipoproteína (a) é um fator de risco cardiovascular hereditário e ainda não existe nenhum tratamento aprovado especificamente para a baixar.
A Amgen e a Eli Lilly têm medicamentos concorrentes em fases avançadas de testes, o olpasiran e o lepodisiran.
Com a Novartis a perder terreno, os próximos resultados destas duas empresas passam a ser ainda mais importantes para perceber quem pode ficar na frente.
MACROECONOMIA
A Alemanha trava com força

O que se passou
A produção industrial alemã caiu 1,1% em julho face a junho.
Foi a maior queda em quase um ano e ficou bem abaixo da subida de 0,2% que os economistas esperavam.
O que isto significa
Grande parte da queda veio do setor automóvel, onde a produção caiu 9,2%.
Várias fábricas estiveram paradas durante semanas para adaptar linhas à produção de veículos elétricos, o que ajuda a explicar uma parte da queda.
Mas os sinais de fraqueza não aparecem só neste mês.
O crescimento de junho, que inicialmente tinha sido reportado como positivo, acabou revisto para zero. E as próprias autoridades alemãs continuam a apontar os custos elevados da energia como um dos problemas da indústria.
Há, ainda assim, um sinal mais positivo: as encomendas às fábricas subiram pelo terceiro mês consecutivo.
Porque deves querer saber
🚗 O motor da indústria alemã engasga-se.
O setor automóvel continua a ter um peso enorme na indústria alemã, por isso qualquer travagem ali acaba por se sentir no resto da economia.
O emprego no setor já está no nível mais baixo desde 2005 e deve continuar a cair. A Volkswagen, por exemplo, anunciou planos para cortar 50.000 postos de trabalho, metade deles na Alemanha.
Ao mesmo tempo, as marcas alemãs estão a lidar com concorrência chinesa, uma transição elétrica cara, energia mais cara e procura fraca na Europa.
É uma combinação difícil.
📈 Os juros europeus também sobem.
E a energia mais cara não está apenas a pressionar a indústria.
Também está a alimentar receios de inflação, o que levou o mercado a aumentar as apostas numa nova subida de juros pelo BCE e a vender obrigações de longo prazo.
Na Alemanha, a yield a 30 anos chegou ao nível mais alto desde 2011. Em França e Itália também estamos a ver máximos de vários anos.
Ao mesmo tempo, alguns mercados emergentes estão a ter um desempenho melhor. A dívida destes países já rendeu mais de 3% este ano e voltou a atrair casas como JPMorgan, BlackRock e T. Rowe Price.
É uma mudança interessante, porque parte do dinheiro está a sair precisamente dos mercados que durante anos foram vistos como os mais seguros.
Conclusão do dia
Se tivesse de guardar uma ideia da newsletter de hoje, ficava com esta: a corrida à inteligência artificial já não está a mexer apenas com chips, data centers e receitas.
Está também a mexer com o custo do dinheiro.
Construir toda esta infraestrutura exige centenas de milhares de milhões de dólares e, quanto mais capital as tecnológicas precisam de ir buscar ao mercado, maior pode ser a pressão sobre os juros de longo prazo.
E esses juros acabam depois por aparecer em todo o lado.
Nas valuations das ações, no custo de financiamento das empresas, nos créditos à habitação e até na escolha entre ter dinheiro em ações ou em obrigações.
Por isso, nos próximos meses eu não olharia apenas para quanto Microsoft, Meta, Alphabet ou Nvidia estão a gastar em IA.
O mais interessante vai ser perceber quanto lhes custa financiar esse crescimento e até que ponto conseguem fazê-lo com o dinheiro que o próprio negócio gera.
Se os investimentos continuarem a aumentar e os juros se mantiverem altos, essa diferença entre empresas pode começar a pesar muito mais do que até agora.
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Até amanhã,
Equipa Clareza
