Destaques do dia

Viva, investidor 👋

Aqui está o que precisas de saber hoje, em 6 minutos.

  • 💭 Ray Dalio diz ver "sinais clássicos" de bolha nos mercados, e aponta o dedo à onda de novas emissões de ações ligadas à IA

  • 🏦 Jamie Dimon avisa que nunca houve tanto dinheiro emprestado a ser usado para investir em ações, e que parte desse risco nem aparece nas estatísticas

  • 💾 A Sandisk caiu 9% após o fecho do mercado, apesar de ter batido as estimativas de lucro no último trimestre

Os números de hoje

S&P500
NASDAQ
OURO
BITCOIN
US BONDS
BRENT OIL
0,17%
0,83%
0,36%
1,13%
0,01%
0,30%
7.724
26.363
$4.321
$64.821
4,62%
$79,69

Dados fornecidos pelo Yahoo Finance.

MERCADOS
Sim, sim, sim

O que se passou

Ray Dalio, o bilionário fundador da Bridgewater Associates, deixou um dos avisos mais diretos que já fez sobre o atual momento dos mercados, numa participação no podcast The Diary of a CEO, apresentado por Steven Bartlett. Perguntado se via sinais de bolha, respondeu sem hesitar: "Sim. Sim. Sim."

O que isto significa

Bartlett começou por recordar Jeremy Grantham, cofundador da GMO, que descreveu o momento atual como “a maior bolha de investimento da história americana”. Ray Dalio concordou sem hesitar: “Ele tem razão.”

E Grantham não é conhecido por fazer este tipo de alerta ao acaso. Antecipou a bolha imobiliária japonesa, a bolha das pontocom e, em 2007, avisou que o mercado imobiliário americano já estava em território de bolha, meses antes da crise financeira.

O investidor Owen Lamont diz que há quatro sinais clássicos de uma bolha: valorizações extremas, investidores que reconhecem que os preços estão altos mas continuam a comprar, muitas novas ações a chegar ao mercado e uma vaga de novos investidores.

Dalio focou-se sobretudo nesse terceiro sinal. Como explicou, é muito fácil criar ações, levantar capital e transformar alguém num bilionário no papel sem que esse valor tenha realmente mudado de mãos.

E já há exemplos disso a aparecer. A SpaceX entrou em bolsa em junho e já negoceia abaixo do preço da estreia. A Anthropic e a OpenAI também avançam para valorizações próximas de um bilião de dólares, embora a OpenAI já tenha adiado a entrada em bolsa para 2027.

Porque deves querer saber

💸 Riqueza não é dinheiro.

Dalio explicou a mecânica com um exemplo simples: compra uma ação de uma empresa de inteligência artificial por 100 dólares, pede dinheiro emprestado usando essa riqueza no papel como garantia, e quando o mercado vira e toda a gente precisa de liquidez ao mesmo tempo, o preço pode cair para 25 dólares enquanto o empréstimo continua por pagar.

"Vês muita gente a ficar rica, mas não podes gastar riqueza", disse ele. "Tens de vender a riqueza para conseguir dinheiro, porque só consegues gastar dinheiro."

🌀 O que vem depois costuma ser pior.

Dalio vê este momento como parte de um padrão que se repete mais ou menos a cada 80 anos, quando se juntam níveis elevados de dívida, desigualdade e tensão política.

Ele dá o exemplo do Reino Unido, que teve seis primeiros-ministros em apenas sete anos. Na leitura de Dalio, isso mostra o que acontece quando os governos têm cada vez menos margem financeira e os eleitores começam a virar-se uns contra os outros para decidir quem deve pagar a conta.

Mas o maior aviso de Dalio não foi propriamente sobre a bolha em si. Foi sobre aquilo que costuma acontecer depois de ela rebentar.

Não são apenas perdas nas carteiras. Historicamente, o fim destes grandes ciclos também costuma vir acompanhado de mais instabilidade política, maior divisão dentro dos países e conflitos geopolíticos mais intensos.

MERCADOS
A dívida com outro nome

O que se passou

Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, avisou numa entrevista à CNBC que a alavancagem nos mercados financeiros continua muito elevada, e que parte dela nem sequer aparece nas estatísticas habituais.

O que isto significa

“A dívida de margem, ou seja, o dinheiro que os investidores pedem emprestado para comprar ações, está no nível mais alto de sempre”, disse Jamie Dimon. “E há muita outra alavancagem que não aparece com esse nome, mas que na prática funciona da mesma forma.”

Dimon referia-se, por exemplo, aos empréstimos que os bancos de investimento fazem a hedge funds. Estes fundos usam estratégias mais agressivas e recorrem muitas vezes a dinheiro emprestado para aumentar o tamanho das suas apostas. Falou também de ETFs e de operações de arbitragem com dívida pública americana, em que os investidores tentam ganhar com pequenas diferenças de preço nos títulos do Tesouro, normalmente com muita alavancagem.

O alerta surge depois de um episódio recente com o fundo Situational Awareness, focado em inteligência artificial. Algumas apostas alavancadas em empresas tecnológicas correram mal e o fundo foi obrigado a vender grande parte da carteira para responder às exigências dos bancos que o financiavam. O JPMorgan era um desses bancos.

Dimon não disse que estamos perante um risco capaz de provocar uma crise financeira. Mas deixou claro que o nível de alavancagem é elevado e merece atenção.

Porque deves querer saber

📉 Um fundo sozinho pode abanar o mercado.

Com tanta alavancagem espalhada pelo sistema, basta um fundo ou um grande investidor começar a vender à pressa para a volatilidade se alastrar rapidamente ao resto do mercado. Foi mais ou menos isso que aconteceu com o Situational Awareness, mesmo sem o episódio ter evoluído para uma crise maior.

Dimon, no entanto, faz uma distinção importante em relação a 2008. Na altura, o problema não foi apenas haver muito dinheiro emprestado. Foi existirem perdas reais e muito grandes nas hipotecas, que acabaram por aparecer nas contas.

🪖 A inflação pode voltar por outra porta.

Dimon também alertou para outro risco: os défices públicos elevados, o investimento em infraestrutura e o rearmamento global podem manter os juros de longo prazo altos durante mais tempo. Como disse, “a remilitarização do mundo seria inflacionária”.

A lógica é simples. Se os investidores exigirem uma compensação maior para emprestar dinheiro a muitos anos, as taxas sobem. Foi por isso que Dimon já tinha chamado aos juros de longo prazo “o desmancha-prazeres da festa”.

RESULTADOS
Quando bater as previsões não chega

O que se passou

Na quarta-feira, as ações da Sandisk caíram mais de 9% após o fecho do mercado, depois de a empresa apresentar um guidance de receita para o próximo trimestre abaixo do que os analistas esperavam.

O que isto significa

A empresa, especializada em memória flash e soluções de armazenamento, espera agora uma receita entre 10,3 mil milhões e 10,8 mil milhões de dólares no primeiro trimestre fiscal, abaixo dos 11,16 mil milhões esperados pelos analistas. A margem bruta também deverá recuar ligeiramente, depois de ter atingido um recorde de 84,6% no último trimestre, para um intervalo entre 83% e 85% em 2027.

Ainda assim, os resultados do último trimestre foram fortes. A Sandisk registou uma receita de 8,79 mil milhões de dólares, acima dos 8,64 mil milhões esperados, e um lucro ajustado por ação de 39,25 dólares, também acima da previsão de 34,37 dólares.

O crescimento veio sobretudo da subida dos preços. Cerca de um terço resultou de um maior volume de vendas, enquanto os restantes dois terços foram explicados por preços mais altos.

A gestão voltou ainda a dizer que a procura continua acima da oferta e que deverá continuar a limitar a quantidade de memória disponível para cada cliente, pelo menos, até depois de 2027.

Porque deves querer saber

🔒 Contratos que prendem os clientes ao futuro.

Desde abril, a Sandisk tem assinado cada vez mais acordos de longo prazo com clientes, o que a empresa chama de novo modelo de negócio. São já três acordos novos e duas expansões de contratos existentes, com uma duração média de mais de quatro anos.

Segundo o diretor financeiro Luis Visoso, estes contratos garantem já um mínimo de 93,9 mil milhões de dólares em receita futura, mesmo assumindo o preço mais baixo previsto. Isto dá à empresa uma visibilidade sobre o futuro que o guidance de um único trimestre, por si só, não mostra.

🚀 Depois de subir quase 490%, qualquer travão pesa.

A ação da Sandisk é a que mais sobe no S&P 500 desde o início de 2026, com uma valorização de quase 490%. Esta semana, a empresa anunciou ainda uma parceria com a SK Hynix para desenvolver um novo padrão de memória de alta velocidade, pensado para tornar os chips de inteligência artificial mais rápidos e mais eficientes.

Mas depois de uma subida destas, o mercado deixa muito pouco espaço para desilusões. A empresa já estava a ser avaliada como se tudo tivesse de correr na perfeição. Por isso, uma previsão abaixo do esperado pesa muito mais do que pesaria numa ação menos valorizada. Neste ponto, resultados “bons” já podem não ser suficientes.

Conclusão do dia

Hoje há duas vozes muito ouvidas em Wall Street a dizerem, por caminhos diferentes, praticamente a mesma coisa: cuidado com o otimismo à volta da inteligência artificial e com o crédito que o alimenta.

Dalio fala de bolha e aponta a emissão de ações como um dos sinais mais claros. Dimon fala de alavancagem escondida e de um fundo que já sentiu isso na pele. Nenhum dos dois diz que o fim chega amanhã, mas os dois apontam para a mesma vulnerabilidade: muita riqueza no papel, construída com dinheiro emprestado.

A queda da Sandisk depois de resultados que, no papel, foram bons, é talvez o exemplo mais concreto do dia. Depois de uma subida de quase 490% num ano, o mercado deixou de recompensar apenas "bom". Só "excelente" chega, e uma guidance ligeiramente abaixo do esperado foi suficiente para travar a ação.

Talvez seja essa a pergunta a levar contigo para o resto da semana: quantas outras ações da tua carteira já estão a ser julgadas pelo mesmo padrão apertado?

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Até amanhã,
Equipa Clareza

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